domingo, 2 de dezembro de 2012

O Fim Do Ciúme - Proust

“Mas então, levantando os olhos, percebeu Françoise, no meio dos criados, do doutor, de duas velhas parentes, que rezavam todos ali perto dele. E se deu conta que o amor, purificado de todo egoísmo, de toda sensualidade, que ele queria tão doce, tão vasto e divino nele, prezava as velhas parentes, os criados, o próprio médico tanto quanto Françoise, e que tendo já por ela o amor de todas as criaturas a quem sua alma semelhante à delas o unia agora, não tinha mais nenhum outro amor por ela. Não podia sequer conceber sofrer com isso, de tanto que todo amor exclusivo por ela, a própria idéia de uma preferência por ela, agora se achava abolida.
“Em prantos, junto ao leito, ela murmurava as mais belas palavras de outrora: ‘Meu país, meu irmão.’ Mas ele, não tendo nem vontade nem forças para desenganá-la, sorria e pensava que seu ‘país’ não estava mais nela, porém no céu e na terra inteira. Repetia em seu coração: ‘Meus irmãos’, e, se a olhava mais que aos outros, era só por piedade, pela torrente de lágrimas que via correr sob seus olhos, seus olhos que logo se fechariam e que já choravam. Mas ele não a amava mais e nem de outro modo que ao médico, que às velhas parentes, que aos criados. E era esse o fim de seu ciúme.”

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