quarta-feira, 29 de janeiro de 2025

Comunismo e nazismo

Por que o nazismo é pior do que o comunismo? Ou por que o nazismo é proibido e o comunismo, não? Esse tipo de pergunta vem crescendo silenciosamente no Brasil, desde o início da década passada. Eu vou dar uma resposta segundo os meus conhecimentos de história e filosofia. Não é resposta final, mas é um convite a pensar e repensar ideias, ideologias, posicionamentos políticos. De cara já vou adiantar isso: comunismo e nazismo são sim duas formas de totalitarismo, mas são DUAS, não uma. Não são o mesmo totalitarismo. Eu me oponho a ambas, inclusive, mas nem por isso afirmo que são iguais. Dito isto, sigamos.

Por que o nazismo é pior que o comunismo? Ou por que o nazismo é proibido e o comunismo não?

Muita gente vai defender que comunismo é pior por uma questão quantitativa, ou seja, comunismo “matou mais”. É polêmico estabelecer os números de mortos dos dois lados. Ambos comunistas e nazistas dirão que como foram “derrotados”, não se hegemonizaram, os dados sobre suas vítimas são oferecidos por seus inimigos. Existem também detalhes a serem “escolhidos” quando se vai contar vítimas. Por exemplo, como os nazistas começaram a segunda guerra mundial todos os mortos da guerra, além do holocausto, deveriam ser responsabilidade deles? Da mesma forma, todos que morreram em guerras civis que antecederam o estabelecimento de regimes comunistas deveriam ser vistos como vítimas do comunismo? Analisando friamente, eu diria que pela radicalidade da mudança e pelas condições da luta pelo poder, provavelmente o comunismo matou mais. Mas eu não tenho como “provar” isso de fonte “neutra”. E também não acho que o número de mortos decida o pior. Talvez se analisarmos a história da implementação do capitalismo desde a revolução industrial até a relativa estabilização da segunda metade do século passado (depois da Segunda Guerra Mundial), ele tenha matado mais que os outros dois juntos. Mas então, como decidir quem é “pior”? Para ter uma visão mais clara sobre isso, precisamos passar do “quantos morreram” para o “porque morreram”. 

O comunismo matou muitas pessoas porque se implementa de maneira revolucionária. Os comunistas propõem um novo modelo de vida em sociedade, isso pressupõe luta, luta ferrenha, pessoas morrem assim como em toda revolução (ou guerra civil ou de independência), é inevitável. O comunismo também matou como consequência do caos gerado pelo processo revolucionário (mortes indiretas). Outros motivos foram a má administração de recursos e um sistema econômico ineficiente pra suprir necessidades básicas. A extrema centralização das decisões econômicas matou muita gente de fome. Outro motivo foram os campos de concentração, gulags no caso da União Soviética, pra onde eram mandados presos políticos e alguns criminosos comuns. A ideologia que sustenta a perseguição política no comunismo é política/social de fato, ela escolhe suas vítimas por uma questão de posição social/política/econômica, não é assim no nazismo, mas veremos. 

Eu não tenho informações sobre quantas pessoas morreram na Alemanha durante a ascensão nazista ao poder, mas acho que não devam ser muitas porque, afinal de contas, Hitler chegou ao poder por eleição – e lembrem bem disso, nenhum país comunista se tornou comunista como consequência de eleições, o comunismo sempre chegou na esteira de alguma guerra (Primeira Guerra Mundial para o comunismo russo, Segunda para o chinês e para o coreano, guerra do Vietnã – começa como guerra de independência em relação à França e não como revolução comunista – para o vietnamita, etc.). O que eu sei é que antes dos campos de concentração para extermínio de judeus, homossexuais, comunistas, social-democratas, ciganos, eslavos, etc. Os nazistas já haviam eliminado todos os pacientes com algum tipo de deficiência mais séria (física ou mental) que estivessem internados em instituições do Estado (como manicômios). Houve perseguição política no nazismo, contra comunistas, social-democratas e mesmo liberais, mas o cerne da ideologia nazista não perseguia essas pessoas por motivos políticos, elas eram vistas como “mentalmente degeneradas”. O problema delas era “biológico/fisiológico”, apenas se manifestava nas suas escolhas políticas. Deste modo, não importava que essas pessoas decidissem aderir ao nazismo, elas estavam marcadas “biologicamente” para morrer, eram “pragas”. Da mesma forma com as maiores vítimas do nazismo, os judeus. Para o nazista o judeu era inerentemente “mau”, não importava o que ele tivesse feito ou não, porque o problema é sua etnia, sua “raça” (“biologicamente” falando) e esse “problema” pode apenas ser exterminado, porque não se pode mudar a etnia de uma pessoa. 

No comunismo soviético se costumavam organizar, durante o período revolucionário e logo após a ascensão de Stálin, “julgamentos” públicos nos quais “inimigos da revolução” eram julgados e executados. Nem é preciso dizer que era totalmente improvável que essas pessoas tivessem acesso a qualquer tipo de julgamento justo, as suas confissões eram consequência de tortura. Agora, tal prática nunca aconteceu no nazismo. Seria fácil para os nazistas organizarem falsos julgamentos com judeus torturados que diriam o que fosse mandado a eles que dissessem. Então por que os nazistas não promoviam esses julgamentos “circo”? Porque pra ideologia nazista o judeu não era um ser humano, mesmo que ele nunca tivesse cometido nenhum crime, a sua condição de criminoso é biológica, inerente à sua “raça”, logo, julgá-lo individualmente é irrelevante. Também não se viam crianças em gulags (campos de concentração soviéticos) porque isso não faz sentido frente a ideologia comunista. O “burguês” não é um inimigo “biológico” do proletariado, a condição de enfrentamento entre ambos não é ditada pela “natureza genética” de cada um, mas pelas circunstâncias socioeconômicas. Já os nazistas executavam até mesmo bebês de colo judeus, porque eles eram vistos como uma praga, inimigos inerentes/biológicos da “raça ariana”. 

Também o nazismo não matou as vítimas do holocausto por ineficiência econômica, ou falta de tecnologia adequada para um processo produtivo eficiente. Pelo contrário, os nazistas criaram verdadeiras indústrias da morte munidas de infraestrutura gigantesca e com complexa logística. As vítimas do nazismo não foram vítimas do caos, elas foram vítimas da eficiência assassina do Estado nazista. Isso não tem paralelo na história humana, até o momento. Por esse motivo, nesse mundo de monstros os nazistas foram os piores.

sábado, 13 de julho de 2024

Nigredo.

Ela vinha a mim como uma fera selvagem. Tomava-me, arrebatava-me de seja lá o que estivesse fazendo. Punha-me, instantaneamente, em outro mundo. Virava-me de pernas para o ar. Puxava-me para baixo. Forçava-me a ser homem, por mais que me apetecesse ser algo de muito mais etéreo que um humano, que esse semi-animal um tanto ridículo. Por mais que me apetecesse ser algo de nulo, ou neutro, ou assexuado... Por mais que me apetecesse manter certa distancia do mundo, escarnecer os mundanos e suas vidas atribuladas repletas de tolices bizarras. Ela tal não me permitia. Devolvia-me, sempre, ao mundo de dor e prazer. Puxava-me para a terra, para o seio, para o ventre, a profundidade, o abismo terreno. A caverna maternal, matricial. Denso, ardente, úmido. Eu não podia resistir aos seus encantos. Aos seus modos sem modos, ao seu olhar devorador, aos seus movimentos graciosos e animalescos. Ela bailava sobre mim como uma tigresa.

Não acredito que me amasse. Certamente, não era o que minha visão um tanto romanesca e “ingênua” – uma ingenuidade fabricada, civilizada, nada natural – esperava do amor de uma mulher. Tampouco sei eu o que sentia por ela. Ela simplesmente me tinha. E me teria quando quisesse, eu o constatava. Isso apenas acontecia. Como uma flor que desabrocha sem aviso e sem motivo. Quando nos uníamos sentia-me possesso dela. A sua presença ofuscava o que mais que fosse. Mas sua ausência, por vezes, me era até bem-vinda. Era como ser abandonado pela tempestade. Exausto. Meio morto. Aliviado. Porque a vida em excesso, que ela me trazia, era algo de extático, de ardente, de empolgante. Porém, incompreensível, caótico, incontrolável. Uma grande fome de calma e análise me perturbava se permanecesse muito tempo em sua presença. Filha da noite, da lua – ela vinha eclipsar o sol de minha masculinidade assertiva. Tornava as coisas turvas e inebriantes. Um tanto mais livres e incertas. Estressantes e excitantes. De beleza indômita. Às vezes, cruel.

Talvez ela precisasse de mim, de alguma forma. Ainda que muito vagamente, eu intuía nela uma espécie de “amor odiante”, ou “ódio amante”. Quando surgia em minha porta havia algo de desejo e de asco no seu rosto. Como uma amazona, talvez ela sentisse atração animal pelo meu membro e ressentisse, ou até temesse, o fato de que o resto de mim tivesse que vir junto com ele. Há algo de extremamente feminino e virginal nessa ânsia temerosa. Mas o temor não apetecia à sua natureza indomada, talvez por isso me desejar – e, assim, temer – causasse nela certo ódio. Esse traço de sua personalidade despertava em mim um impulso por protegê-la. E isso a irritava mais. Nessas ocasiões me empurrava contra a parede, me arranhava o peito e me mordia o pescoço como uma leoa ofendida. Então, algo de leão também despertava em mim. E nós nos amávamos como bestas selvagens. Eu a tomava pelas ancas, urrando e arranhando, mordendo e gemendo. Ela me olhava com sorriso malicioso, havia conseguido libertar o que eu trazia enjaulado. Havia vencido a guerra contra minha cortesia apática e distante.

Muitas vezes senti-me, de certa forma, violentado por ela. Por mais que fosse eu que a penetrasse, ela é que me devorava. Transfigurava-me no amante que desejava. Talvez, no amante que necessitava. Mas ao fim do sexo, eu sentia que algo de todo o meu ódio, da minha frustração e violência se desprendia do meu ser. Talvez, habitasse agora nela, junto com meu sêmen. Ali, naquele ventre misterioso e sacro – pelo menos aos meus olhos masculinos – a metamorfose se dava. E como a Terra que acolhe o cadáver em seu seio para gerar a flor em seguida, ela olhava-me com um sorriso tenro nos lábios. Nutrida, quem sabe, por uma energia que em mim gerava apenas violência e acabrunhamento.

Como eu disse, ela nunca permitia que eu fosse carinhoso, até que tivéssemos dado cabo de todo aquele ritual de violência sagrada. Então, eu podia tocá-la suavemente. Descobrir lentamente os contornos do seu corpo sinuoso e ebâneo. Beijar-lhe a boca devagar. Mergulhar, enfim, delicada e profundamente, de corpo e alma inteiros, naquele mar negro. Seus braços serpenteavam sobre minhas costas. Eu me sentia envolvido pelo calor que emanava do seu corpo, da sua boca, do interior da sua vagina; e que subia pela espinha até aquecer meu espírito tão austero e distante... Doce mulher. Eu ansiava por um filho das tuas entranhas. Ainda anseio…

(Habens Esse, 2014)



I'm giving you a night call to tell you how I feel
I want to drive you through the night, down the hills
I’m gonna tell you something you don't want to hear
I’m gonna show you where its dark, but have no fear”

(Kavinsky feat Lovefoxx – Nightcall)



quinta-feira, 5 de agosto de 2021

pequeno-burguês



Sentado aqui
esse silêncio indizível das coisas
encara-me, cego
sempre
aqui

ela diz que esse desespero mudo
é parte da minha letargia de pequeno-burguês
ela diz que a tragédia real
não se esgueira pelos cantos de apartamentos financiados
nem se arrasta sobre barrigas cheias e levemente flácidas
ela diz que a tragédia real se impõe, 
salta na jugular,
vinda do outro lado da esquina, 
do outro lado da cama
do outro galho da árvore genealógica
um encontro de sobrevivências,
violências…

o que ela não sabe é que eu sei…
eu sei
essa tristeza que me invade e me soterra
vem do fato de que eu sei...
eu sei

do outro lado do desespero total
da luta constante pela paz evanescente
existe esse desalento sem rosto
esse desassossego sem razão
esse afogar-se lentamente
dos “vencedores”

eu sei, eu queria não saber
mas eu sei…

...e isso ela não sabe

as promessas de paz e bonança
escondem esse conflito sem nome
a necessidade constante de lutar
esconde o vazio da “vitória”

...não há vitória
eu sei

sexta-feira, 23 de abril de 2021

fragmentos: o "epicurista" e a pretensão dos humanos.

Mal me conhece e acha que pode me “salvar”… salvar de quê?! Você diz que entende… entende o quê?! Mal entende o que diz esse corpo. Ah, essas profundidades suas... Ignorantes da obviedade da nudez do rei. O que quero eu com isso?

O que me irrita não é nem esse fingimento. Esse jeito de desejar “sem desejo”, esse tergiversar sem fim... esse teatro. Isso é até compreensível. Civilizados que somos, não? O que me assombra é que você finge com sinceridade… E ainda acha que me "entende”, que pode me “salvar”… Ora, salvar de quê?! 

Da fome?! Estou saciado. Da sede?! Estou bem hidratado. Da morte?! Estou bem de saúde, obrigado…

Você quer me salvar do medo, não? Porém, não é nem capaz de chamá-lo pelo nome. M-E-D-O... Saiba, esse medo não me amedronta mais. Eu só o sinto e sigo meu caminho. O medo que você vê (vê sim! vê bem!) está no seu olho, não em mim. Mas não pode nem admitir. Como eles, aliás…  

Não, não me entende. Não me entende porque não se entende… Não me admira que quem diga o óbvio lhe pareça um doente… Alguém pra ser salvo… Salvo de quê?! Da verdade? Ora, pois…

Se o ato de simplesmente admitir o que as coisas são, o que simplesmente está aí, lhe parece um grito de socorro… Que conhecimento é esse seu? Nem mesmo vivemos no mesmo mundo, me parece. O que pode você deduzir da realidade se não pode nem admiti-la em primeiro lugar? Que sabe você de mim? “Saber de mim” é seu jeito de fugir de si mesma. Mas eu não jogo esse jogo. Não mais. 

Antes, porém, de encerrar esse assunto besta eu tenho que lhe dizer. Essa sua alma, esse “abismo invisível”, esse "dentro sem fim” não tem profundidade nenhuma. É só um jogo de espelhos. Reflexão… Ha! Não é mais que uma capa de ideias criadas pra desviar o olhar. Olha! O profundo está no corpo. E a profundidade do corpo está na flor da pele. A flor da pele que engole. É isso mesmo que você teme… e por isso quer… E só vai ter se pedir, com todas as letras. 

segunda-feira, 19 de abril de 2021

fragmentos: desejo é desejo.

Desejo é desejo. Nunca é "eterno", nem mesmo muito longo em duração. Há muitas maneiras pelas quais um relacionamento pode dar errado: desde pessoas loucas e violentas batendo em seus parceiros ou mesmo matando-os, até pessoas que ficam juntas por muitos anos, mas o fazem por causa de pressões culturais/religiosas até legais (em alguns Estados “não muito laicos”) ou mesmo “falta de imaginação”, e apenas vivem o tédio. Porque, como eu disse, desejo é desejo. Terá apenas dois finais possíveis: insatisfação e, por isso, sofrimento; ou satisfação e, por isso, tédio (que também é um tipo de sofrimento) 

...desejo é desejo, não se resume à "humano".

E como nos relacionamentos (ou nas atrações que podem levar a isso) duas ou mais pessoas estão envolvidas, você pode encontrar diferentes configurações de sofrimento e tédio. Um dos parceiros pode já estar entediado, enquanto o outro ainda não está satisfeito. Para um, o desejo pode ter passado (ou ter uma intensidade muito menor do que para o outro) ou mesmo nunca ter existido; enquanto para outro o desejo ainda pode ser grande ou até crescente, etc.

É importante saber que os “mecanismos” (ou “forças”) envolvidas nessa atração são impessoais. Ou seja, não levam em conta a felicidade individual dos animais (humanos ou não) envolvidos nesse jogo de atração. É só observar na natureza como muitas vezes esses “jogos” levam a fins violentos e até trágicos. Veja-se os confrontos entre os machos de muitas espécies pela “posse” das fêmeas. Os casos em que um dos parceiros pode chegar a devorar o outro após a cópula (como o caso de algumas aranhas, por exemplo). Ou mesmo os cãezinhos ganindo na rua “engatados” depois de cruzarem… Enfim, a individualidade está “abaixo” desses impulsos que são quase soberanos. O sofrimento de animais humanos individuais não é exceção, faz parte do modo como a atração funciona. 

Parece-me que como seres humanos temos que entender e tomar uma decisão perante isso -- ou seja, a questão tem um aspecto ético, envolve tomada de posição perante uma situação. Pelo fato de sermos (auto)conscientes nos deparamos com esses impulsos. Ou seja, a meu ver, diferente de outros animais, os humanos NÃO SÃO (completamente) instinto, eles TÊM instinto. Isso quer dizer que é esse algo em nós que pode dizer que “tem desejo” que nos faz animais um pouco diferentes. Essa capacidade de (auto)consciência está longe de nos tornar soberanos em relação aos nossos instintos, porém. Ninguém escolhe sentir atração ou estar apaixonado por quem não sente o mesmo. Também ninguém escolhe deixar de amar uma pessoa que ainda a/o ama. Como dito, o mecanismo é impessoal e a condição individual é, digamos, atropelada. Temos que reconhecer essas forças impessoais e parar de simplesmente jogar em um ou outro a “culpa” pelo desejo correspondido ou não. É preciso, me parece, assumir essa condição meio trágica de ser consciente dessa impessoalidade do impulso, mas, ao mesmo tempo, não controlá-la totalmente. Isso deve fazer parte do processo de amadurecimento. Se os impulsos impessoais não têm a felicidade dos indivíduos como prioridade, nós podemos pelo menos tentar diminuir as consequências disso. Nós podemos nos ocupar de diminuir o mal estar envolvido nisso tudo.

...É simplesmente que esse jogo da natureza, da vida, está longe de ser “perfeito” ou “equilibrado” -- quando se olha pra ele do ponto de vista da felicidade e bem estar individuais… É uma bagunça do caralho, na real. 

domingo, 18 de abril de 2021

fragmentos: democracia.

A posição democrática não é a de quem defende o mais fraco porque o considera moralmente superior. Também não é a de quem acha que a iniciativa privada vai salvar a humanidade com a eficiência mercadológica. Nem a de quem acha que a regulação do Estado é que vai salvar a humanidade da mercantilização de tudo...

A democracia é melhor descrita como um campo aberto de conflito em que se tenta (tendo sucesso nisso ou não) equalizar as oportunidades de ataque e defesa. De forma que as forças envolvidas na construção da vida cotidiana possam se enfrentar da forma mais "equilibrada" possível.

Em outras palavras, a democracia parte da aceitação de que o mundo não se divide claramente em "bem" e "mal", nem entre "luz" e "escuridão". A democracia assume que a realidade é "cinzenta", é um "lusco fusco". Onde os contrários se transformam uns nos outros de forma quase caótica e que não é possível saber com toda certeza no que tudo isso vai dar. Se vai dar em alguma coisa. O grande objetivo não é o fim do conflito, mas sim que o conflito se mantenha "organizado" e suportável. Aqui Estado e iniciativa privada podem coincidir em seus interesses ou se enfrentar. Ou se enfrentar hoje e amanhã se unirem, etc.

Não é por caso que as primeiras práticas democráticas surgiram entre gregos politeístas da antiguidade (ou mesmo entre outros "pagãos", como os escandinavos do mesmo período). Não há "monoteísmo" na democracia. O mundo não está se dirigindo para um "juízo final" na democracia. Os opostos dançam, criam e destroem. Se modificam. Se tornam uns nos outros. E isso não tem um fim "absoluto" definido.

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Jó.

“Há minas para a prata
e lugares onde o ouro é refinado;
o ferro é extraído da terra,
e o cobre é fundido no minério.
Os mineiros conquistam a escuridão
e cavam tanto quanto podem
até o minério na escuridão e nas densas trevas.
Ali onde ninguém habita eles cavam um poço,
uma passagem para os pés deles sobre o esquecimento;
longe do povo, suspensos no espaço,
eles balançam para frente e para trás.

“Enquanto a terra está [pacificamente] produzindo o pão,
por baixo, ela está sendo agitada como que pelo fogo;
suas pedras têm veias de safira,
e há partículas de ouro.
As aves de rapina não conhecem esse caminho,
nem o viu o olho do falcão;
as feras orgulhosas jamais pisaram nele,
nem o leão passou por ele.

“[Os mineiros] golpeiam a pederneira
derrubando montanhas até suas raízes
e escavando galerias nas rochas,
o tempo todo procurando por algo de valor.
Eles represam os ribeiros de modo que não fluam
e trazem o que estava escondido à luz.”
(Iyov [Jó] 28:1-11)

domingo, 5 de maio de 2013

O vale das sombras da morte.

Nós somos os que vão até o limiar das fronteiras
Encaramos os abismos mais vertiginosos
Não negamos as bestas das profundezas
Nem o clamor furioso dos exércitos
Conhecemos o ciúme e o desespero
O ódio e a angustia nos rasgaram ao meio
Tomamos do cálice da arrogância
E fomos apresentados à solidão mais amarga
Bebemos dos mares da tristeza
Até que sobreviesse a loucura dos náufragos
Que confundimos com redenção
Cambaleamos por ruas imundas
Humanos quebrados e maltrapilhos

domingo, 28 de abril de 2013

Um dia limpo

Segue até o campo
Imenso horizonte de verde e azul
A relva cresce alta
Embalada pelo vento
Silêncio
Dias caminhando sem rumo
A espada pesa toneladas na mão direita
Atira-a ao chão
O escudo faz o antebraço esquerdo formigar
Entrega-o à grama
Sentado em paz por um momento
Já não entende a guerra constante
Um dia limpo

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Em Meu Sangue.

Em meu sangue clama uma voz que não é minha
Chama-me de mundos e eras que não conheci
Mostra-me nu e ridículo
Arrogante, impotente, decaído
Em noites de fascínio e terror
Faz de meu coração um campo de batalha
Então abraça-me e embala-me
Como a um filho pródigo
Impávida, severa e doce voz
Clama em meu sangue