Nº1: Eu não gostaria mais de tocar nesse assunto,
senhor. Nem nesse, nem em nenhum outro.
Nº2: Mas por que, meu caro? Depois de tantos
anos, pensei que fôssemos amigos!!
Nº1: Não consigo mais ver sentido em falar,
senhor. Eu me sento aqui nesta mesa há anos falando com o senhor. Admiro sua
paciência, pontualidade, gentileza, tudo que nunca serei. Mas não posso
continuar com isso. As palavras já não me valem já não as vejo como ponte
alguma entre nossas almas. Falo e sinto-me falando sozinho. Grito e mesmo assim
não me ouves, não me ouvem. Que peso se leva dentro sem jamais poder aliviar-se
na certeza de ser compreendido por outrem. Anos de amizade e somos surdos
um ao outro, não vês? Que sei eu de ti, homem? Choras agora por trás deste sorriso
amarelo?
Sento-me aqui todas as noites e é como se as
areias do tempo fustigassem meus olhos... Estamos envelhecendo, senhor. Envelhecemos
a cada minuto. E não sabemos por qual caminho caminhamos. Já não posso olhar
pra vida como se esta fosse uma piada de Deus. Oprime-me o peito a dor que este
mundo exala. Oprimi-me o peito não saber por onde ando. A seus olhos, talvez,
eu agora me revele um covarde. Não posso continuar um cínico, senhor. Nietzsche
talvez risse de minha demência, mas me dirijo aos estábulos imediatamente, abraçarei os
cavalos antes que isto me seja imposto pela natureza. Não posso envelhecer como
uma múmia que dá ares de virtude ao seu medo, a sua covardia. Por Deus, se há
algum que olhe por nós, não posso suportar o fardo da solidão que sinto na
companhia de todos. Inclusive, escusa-me dizer, na sua, senhor... Os corações
dos homens estando adormecidos, que importa o que regurgitem pela boca?
Nenhum comentário:
Postar um comentário