segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Solidão

Nº1: Eu não gostaria mais de tocar nesse assunto, senhor. Nem nesse, nem em nenhum outro.

Nº2: Mas por que, meu caro? Depois de tantos anos, pensei que fôssemos amigos!!

Nº1: Não consigo mais ver sentido em falar, senhor. Eu me sento aqui nesta mesa há anos falando com o senhor. Admiro sua paciência, pontualidade, gentileza, tudo que nunca serei. Mas não posso continuar com isso. As palavras já não me valem já não as vejo como ponte alguma entre nossas almas. Falo e sinto-me falando sozinho. Grito e mesmo assim não me ouves, não me ouvem. Que peso se leva dentro sem jamais poder aliviar-se na certeza de ser compreendido por outrem. Anos de amizade e somos surdos um ao outro, não vês? Que sei eu de ti, homem? Choras agora por trás deste sorriso amarelo?
Sento-me aqui todas as noites e é como se as areias do tempo fustigassem meus olhos... Estamos envelhecendo, senhor. Envelhecemos a cada minuto. E não sabemos por qual caminho caminhamos. Já não posso olhar pra vida como se esta fosse uma piada de Deus. Oprime-me o peito a dor que este mundo exala. Oprimi-me o peito não saber por onde ando. A seus olhos, talvez, eu agora me revele um covarde. Não posso continuar um cínico, senhor. Nietzsche talvez risse de minha demência, mas me dirijo aos estábulos imediatamente, abraçarei os cavalos antes que isto me seja imposto pela natureza. Não posso envelhecer como uma múmia que dá ares de virtude ao seu medo, a sua covardia. Por Deus, se há algum que olhe por nós, não posso suportar o fardo da solidão que sinto na companhia de todos. Inclusive, escusa-me dizer, na sua, senhor... Os corações dos homens estando adormecidos, que importa o que regurgitem pela boca?

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