Há muito que venho sendo advertido pelos
especialistas de que a filosofia não trata do “sentido da vida” de que a
filosofia não trata “do que significa ser” não trata de problemas “existenciais”,
não trata da “substância da vida”. Pra que serve a filosofia, então? Muitos
batem no peito com orgulho pra conclamar que ela não serve para nada. Outros
acreditam que o trabalho do filósofo é criar conceitos, outros que o trabalho
do filósofo é analisar argumentos, descobrir sutilezas, discutir se aquilo é
uma vírgula, ou uma cagada de mosca no livro tal do autor tal...
Se você busca por um sentido pra sua vida, se você
busca por respostas mais profundas, você não está errado! Filosofia é isso! A
pergunta essencial que dá vigor à filosofia é a pergunta sobre o sentido da
vida. Sobre o que significa “ser”, “por que isto e não o nada?”. Todo grande
filósofo a respondeu, ou pelo menos a colocou de forma explícita. Enquanto você
escreve qualquer coisa, você está ancorado na resposta de algum deles. Mesmo que
você não perceba, mesmo que esteja soterrado sobre uma tonelada de argumentos. É
inevitável. Até que você não se coloque a pergunta essencial você não está
fazendo filosofia. Porque filosofia é esta pergunta fundamental, todos os
desdobramentos conceituais são posteriores a esse momento de crise em que a
pergunta essencial da filosofia é colocada. O que é o ser? Qual é o sentido da
vida? Por que tudo isto e não o nada? Isso é filosofia. Mesmo que não haja
resposta nenhuma, se você não é importunado por este tipo de questão, de que
serve filosofar?
Todo o “desenvolvimento” filosófico e científico
que vivenciamos hoje está subordinado a alguma resposta que foi dada a estas
perguntas. Está implícito no nosso modo de viver alguma resposta que foi dada a
esse tipo de pergunta. Está implícito no modo como enxergamos uns aos outros,
no modo como lidamos com a natureza. Mesmo que a resposta tenho sido de um
niilismo senil como “não há sentido”, ou o sentido é o “desenvolvimento
tecnológico” ou o sentido é alcançar o maior prazer ou o sentido é a felicidade.
Enfim, existe sempre uma resposta implícita que só aflora se você se deixar
atingir pela pergunta, a pergunta essencial que é essencial para a filosofia,
que é a própria filosofia, homem!
Então não ouça a voz dos covardes, não desista. Até
porque se você já entrou nesse rio não há mais pra onde retornar, a filosofia
vai continuar martelando e batendo na crosta que envolve tua alma até que ela
entre e bagunce tudo. "Água mole em pedra dura tanto bate até que fura". Não desista da pergunta essencial. Que faço eu aqui? Qual
o sentido da vida? O que significa “ser”? Por que tudo isso e não o nada? É apartir destas perguntas que algo realmente pode ser mudado, são essas perguntas que atingem o âmago dos nossos mundinhos. São perigosas, claro. E não estou dizendo que algum filósofo, ou que a tradição filosófica tenha alguma resposta definitiva a dar. Pelo contrário, estou dizendo que todo estudante de filosofia deva ser confrontado com esse tipo de questão. Em uma sociedade técnica, em uma sociedade de especialistas, é só na filosofia que isto pode acontecer, que estas questões podem ser colocadas. Não deixemos a chama apagar.
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