quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Ancião.

Ele já não podia odiar as pessoas. Nem se lembrava como um dia já havia podido repudiar tão profundamente o mundo. Na verdade, nos últimos tempos tinha de fazer grandes esforços para sentir algo pelo o que se passava ao seu redor. Cansado das mistificações poéticas vazias, cansado das racionalizações científicas simplistas. Ele decidiu apenas que as coisas eram o que eram. E isso não lhe dizia respeito de forma alguma. “Todo sábio se torna um idiota assim que abre a boca” dizia consigo mesmo. Não podia mais participar daquilo que se passava ao seu redor. Muito lhe custava ouvir aos outros seres humanos. A não ser os que vinham lhe procurar com suas angústias nas mãos, atraídos, ao que parece, por uma recente fama de santo que seu silêncio retumbante se encarregava de espalhar com a eloqüência surda e terrível do mistério que sucita um ser humano que já não participa dos delírios da humanidade.

Aquela dor com que os angustiados o procuravam era tão real, seus olhos desesperados, suas mãos trêmulas. Ele quase podia sorrir frente à verdade evidente daquele desassossego crescente com que narravam suas desventuras. Ele queria que eles parassem e observassem a si mesmos, aquele momento lindo de honestidade em que deixavam escorrer anos e anos de máscaras inúteis. Mas eles estavam entretidos demais consigo mesmos, logo a chama da verdade se extinguia. Só restavam lamúrias. Ele, então, chorava com eles.

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