sábado, 13 de julho de 2024

Nigredo.

Ela vinha a mim como uma fera selvagem. Tomava-me, arrebatava-me de seja lá o que estivesse fazendo. Punha-me, instantaneamente, em outro mundo. Virava-me de pernas para o ar. Puxava-me para baixo. Forçava-me a ser homem, por mais que me apetecesse ser algo de muito mais etéreo que um humano, que esse semi-animal um tanto ridículo. Por mais que me apetecesse ser algo de nulo, ou neutro, ou assexuado... Por mais que me apetecesse manter certa distancia do mundo, escarnecer os mundanos e suas vidas atribuladas repletas de tolices bizarras. Ela tal não me permitia. Devolvia-me, sempre, ao mundo de dor e prazer. Puxava-me para a terra, para o seio, para o ventre, a profundidade, o abismo terreno. A caverna maternal, matricial. Denso, ardente, úmido. Eu não podia resistir aos seus encantos. Aos seus modos sem modos, ao seu olhar devorador, aos seus movimentos graciosos e animalescos. Ela bailava sobre mim como uma tigresa.

Não acredito que me amasse. Certamente, não era o que minha visão um tanto romanesca e “ingênua” – uma ingenuidade fabricada, civilizada, nada natural – esperava do amor de uma mulher. Tampouco sei eu o que sentia por ela. Ela simplesmente me tinha. E me teria quando quisesse, eu o constatava. Isso apenas acontecia. Como uma flor que desabrocha sem aviso e sem motivo. Quando nos uníamos sentia-me possesso dela. A sua presença ofuscava o que mais que fosse. Mas sua ausência, por vezes, me era até bem-vinda. Era como ser abandonado pela tempestade. Exausto. Meio morto. Aliviado. Porque a vida em excesso, que ela me trazia, era algo de extático, de ardente, de empolgante. Porém, incompreensível, caótico, incontrolável. Uma grande fome de calma e análise me perturbava se permanecesse muito tempo em sua presença. Filha da noite, da lua – ela vinha eclipsar o sol de minha masculinidade assertiva. Tornava as coisas turvas e inebriantes. Um tanto mais livres e incertas. Estressantes e excitantes. De beleza indômita. Às vezes, cruel.

Talvez ela precisasse de mim, de alguma forma. Ainda que muito vagamente, eu intuía nela uma espécie de “amor odiante”, ou “ódio amante”. Quando surgia em minha porta havia algo de desejo e de asco no seu rosto. Como uma amazona, talvez ela sentisse atração animal pelo meu membro e ressentisse, ou até temesse, o fato de que o resto de mim tivesse que vir junto com ele. Há algo de extremamente feminino e virginal nessa ânsia temerosa. Mas o temor não apetecia à sua natureza indomada, talvez por isso me desejar – e, assim, temer – causasse nela certo ódio. Esse traço de sua personalidade despertava em mim um impulso por protegê-la. E isso a irritava mais. Nessas ocasiões me empurrava contra a parede, me arranhava o peito e me mordia o pescoço como uma leoa ofendida. Então, algo de leão também despertava em mim. E nós nos amávamos como bestas selvagens. Eu a tomava pelas ancas, urrando e arranhando, mordendo e gemendo. Ela me olhava com sorriso malicioso, havia conseguido libertar o que eu trazia enjaulado. Havia vencido a guerra contra minha cortesia apática e distante.

Muitas vezes senti-me, de certa forma, violentado por ela. Por mais que fosse eu que a penetrasse, ela é que me devorava. Transfigurava-me no amante que desejava. Talvez, no amante que necessitava. Mas ao fim do sexo, eu sentia que algo de todo o meu ódio, da minha frustração e violência se desprendia do meu ser. Talvez, habitasse agora nela, junto com meu sêmen. Ali, naquele ventre misterioso e sacro – pelo menos aos meus olhos masculinos – a metamorfose se dava. E como a Terra que acolhe o cadáver em seu seio para gerar a flor em seguida, ela olhava-me com um sorriso tenro nos lábios. Nutrida, quem sabe, por uma energia que em mim gerava apenas violência e acabrunhamento.

Como eu disse, ela nunca permitia que eu fosse carinhoso, até que tivéssemos dado cabo de todo aquele ritual de violência sagrada. Então, eu podia tocá-la suavemente. Descobrir lentamente os contornos do seu corpo sinuoso e ebâneo. Beijar-lhe a boca devagar. Mergulhar, enfim, delicada e profundamente, de corpo e alma inteiros, naquele mar negro. Seus braços serpenteavam sobre minhas costas. Eu me sentia envolvido pelo calor que emanava do seu corpo, da sua boca, do interior da sua vagina; e que subia pela espinha até aquecer meu espírito tão austero e distante... Doce mulher. Eu ansiava por um filho das tuas entranhas. Ainda anseio…

(Habens Esse, 2014)



I'm giving you a night call to tell you how I feel
I want to drive you through the night, down the hills
I’m gonna tell you something you don't want to hear
I’m gonna show you where its dark, but have no fear”

(Kavinsky feat Lovefoxx – Nightcall)



Nenhum comentário:

Postar um comentário